Tarde na casa da vó.

Já havia me esquecido como é bom passar a tarde na casa de minha vó. Há tempos não o faço, fico uma ou duas horas e retomo o caminho de casa.

Nada é mais como antes, passar as tardes naquele lugar era um de meus passatempos favoritos. Minha vó, aquela que sempre estava preocupada com cada detalhe: Com quantas horas estávamos sem comer, se andávamos descalços, se a roupa estava adequada ao clima... Era minha avó, a mulher que através de olhares e sorrisos conseguia dizer o quanto nos amava.

Mas há algum tempo as coisas começaram a mudar, lembro me como se fosse hoje: Era Janeiro de 2005, voltávamos de uma viagem à praia e a encontramos não muito bem, alguma coisa estaria acontecendo, a principio nada parecia grave, mas foi a partir daquele dia que as coisas começaram a acontecer...

E é de fato o único dia que tenho claro na memória, os outros se apagaram, não me lembro ao certo como tudo aconteceu, acho que me esquivei ao me dar conta da situação.

Mais tarde o diagnostico veio: Mal de Alzheimer.

Minha vó, aquela que sempre esteve atenta a tudo, já não me olhava mais. Aquela que sempre me sorria, já não tinha qualquer expressão em seu rosto, estava ali, alheia ao mundo e a qualquer acontecimento.

Se fiz certo ou errado, não sei, mas fugi, fugi da realidade, queria fazer de conta que nada disso estava acontecendo, que em um dia qualquer eu entraria por aquela porta e ela voltaria a sorrir para mim, voltaria a me chamar de “amor da vó”, voltaria a me criticar quando largasse os chinelos no tapete da sala e saísse a correr descalça pelo corredor.

Mas nada daquilo voltaria. Nada.

Não queria aceitar, queria na memória a lembrança da mulher que minha vó foi, e definitivamente não era o que acontecia, cada vez que a via uma parte da mulher que fora ia dando lugar a memória da mulher que ela se tornou. Foi a partir de então que minhas tardes por lá foram ficando cada vez mais raras.

Aos poucos o quadro melhorou, ganhei alguns sorrisos, algumas risadas tímidas, e até meu nome foi dito baixinho...

E hoje, ao receber o telefonema de uma prima, resolvi que iria passar minha tarde lá.
Apanhei um livro e fui.

Cheguei, sentei me no sofá ao seu lado e comecei a ler, enquanto isso meu primo corria pela casa e minha prima ficava na tentativa de tirar minha atenção daquelas letras.
Enquanto meu primo insistia em correr, notei minha vó levantar a mão e balbuciar algumas palavras em tom de irritação. As palavras não eram claras, mas eu soube, ela estava ali, tentando impedir que meu primo corresse, ele poderia cair. Era isso! Era ela! Era o que ela tentava lhe dizer.
Presenciei alguns sorrisos, alguns olhares atentos, e percebi, ela ainda está ali, estava vendo e observando todos nós, por trás daquela mulher fraca estava ela: A minha vó, a mesma de sempre!




[ ver mensagens anteriores ]